domingo, 18 de dezembro de 2011

O nascimento do hospital - um fichamento

Fichamento do texto O nascimento do hospital.
In.: FOUCAULT, M., 1984b. Microfísica do Poder. Obtido pelo site: http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/microfisica.pdf (acesso em 10/10/2011)

O nascimento do hospital é um dos capítulos integrantes do livro Microfísica do Poder, de Michel Foucault, no qual estão reunidas algumas obras do filósofo, muitas das quais de muita valia para os estudos da área das Ciências da Saúde. O texto é resultante de uma conferência do filósofo e se propõe, no dizer do próprio autor, a tratar do “aparecimento do hospital na terapêutica médica”. Em princípio, é dito que a concepção de um hospital como instrumento terapêutico é algo recente, datando do final do século XVIII, com a ocorrência de algumas viagens de investigação, principalmente as empreendidas por Howard e Tenon. Tais viagens, embora não tenham se prestado a detalhar as condições hospitalares gerais da Europa, pode-se dizer que serviram como base para a reformulação/reconstrução de hospitais (agora vistos como “fatos médico-hospitalares”), a partir do acesso a dados quantitativos (número de doentes, leitos, área, etc) e mesmo a formulação de causalidades para algumas enfermidades (condições de vida e localização dos internos, localização funcional de elementos da estrutura hospitalar, por exemplo).

Nessa época, germina a ideia de que um hospital podia ser considerado como “maquina de curar”, embora não fizessem o prometido – curar – a contento. Foucault, por sua vez, objeta quanto a esta hipótese, dizendo, entre outras coisas, que nessa época a medicina não era tida ainda como uma “pratica hospitalar”, mas sim “uma instituição de assistência aos pobres”. Daí, autor chegar a dizer que até então, o hospital acolhia o pobre que estava morrendo e não o doente carente de cura (“morredouro”). Para exemplificar o que diz anteriormente, Foucault recorre ao exemplo do exército militar e marítimo, onde se processou a reorganização hospitalar destinada aos soldados através da disciplina, que por sua vez teve outro paradigma na constituição das relações escolares (a reorganização dos espaços, o ensino coletivo, o uso da disciplina da “análise do espaço” e a classificação dos corpos).

A disciplina, tomada aqui pelo exemplo do militarismo e do ambiente escolar, acaba, segundo Foucault a exercer um papel preponderante na constituição daquilo que integra o ambiente hospitalar e a própria medicina.
Se antes do século XVIII  a medicina era individualista, a partir de agora, a medicina passaria a ser “hospitalar” e o hospital passaria a ser “medicalizado”. Foucault, explica, entre outros aspectos, que isso aconteceu por conta de fatores como:
- a busca pela “anulação dos efeitos negativos do hospital” (naquilo que ele tinha de contaminável ou de servir de refúgio a práticas ilícitas cometidas por parte de traficantes hospitalizados, por exemplo);
- o fato de que a disciplina pode exercer controle no desenvolvimento de uma ação (por exemplo, a fiscalização de determinados processos para um melhor aproveitamento final);
- o fato de que a disciplina “é uma técnica que implica vigilância perpétua e constante dos indivíduos” (daí surgirem os sistemas de inspeção, vistorias, revistas, desfiles, oriundos do militarismo);
- o fato de que a disciplina exigir “registro contínuo”: isso explica a característica essencial dos exames, de ser o produto arraigado do senso de “vigilância permanente, classificatória”.

Portanto, sem a inserção da técnica disciplinar no espaço do hospital, seria inviável se promover a sua medicalização (hospital disciplinado). Nesse processo chamado de “inteligibilidade da doença”, Foucault exemplifica citando o caso da botânica, com a sua perspectiva classificatória (espécies, características, desenvolvimento e curso de vida das plantas).

Portanto, para Foucault, o “ajuste desses dois processos, deslocamento da intervenção médica e disciplinarização do espaço hospitalar, que está na origem do hospital médico”, tal como pode ser entendido ainda hoje. A disciplinarização do espaço hospitalar levará cada vez mais à individualização e a distribuição dos doentes “em uma espaço onde possam ser vigiados”, isto é, monitorados. Partindo desse ponto de vista, o filósofo tece algumas conclusões, conforme se seguem:

 O hospital não pode ser concebido sem se levar em conta o seu espaço físico (suas condições de localização, sua assepsia, mesmo em quartos coletivos, já que sua arquitetura é “instrumento de cura”);

 O sistema de poder no interior do hospital foi sensivelmente modificado após o século XVII. Saem de cena os religiosos gestores para dar lugar aos médicos, que passam a cuidar do hospital tanto do ponto de vista médico quanto administrativo. Assim, o médico passa a ser figura presente e constante no hospital, saindo de cena a figura do “médico de consulta privada”;

 O hospital se torna lugar de registro permanente. A produtividade documental possibilita o “acúmulo e a formação do saber”. O conhecimento enciclopédico da academia (sem a prática) dá lugar ao registro hospitalar e isso contribui para a formação plena dos profissionais de saúde.

Assim, Foucault conclui afirmando que as duas medicinas – a do individuo e a da população – serão redistribuídas no decorrer dos séculos e chegaria à configuração patente do século XX e, por que não, do presente século, o XXI.

Autor: Alberto Vicente Silva (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA). Proibido a cópia sem a devida citação.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O Google e o desaparecimento de Agda II



Mais cedo ou mais tarde isto estava previsto para acontecer: o achamento de Agda. Sempre tive esperança, só deixei as coisas engavetadas e no tempo de Deus aconteceu. Este post é apenas uma atualização daquele que falava sobre o desaparecimento dessa colega, hoje a senhora Agda. Ao mesmo tempo é um agradecimento a Agda pela resposta ao post, porque afinal de contas, se alguém tinha que comentar um texto como aquele essa pessoa necessariamente tinha que ser a que foi o tema central.
Antes do que segue, quero dizer que fiquei muito feliz por ter escrito alguma coisa que necessariamente me serviu para achar uma pessoa. Essa facilidade que a internet tem de reunir pessoas cujo elo não tenha se formado no virtual é extremamente importante para as nossas vidas. Afinal de contas, sou uma pessoa normal, viu gente? E sei reconhecer o quanto as pessoas podem ser especiais na nossa vida, ainda que as relações travadas com as mesmas estejam situadas em um pedaço do tempo lá atrás, ainda que não tenham sido estabelecidos os tais laços de amizade propriamente dita e ainda que o tempo seja implacável, arquivando as coisas no passado, sem dó nem piedade.
Nesta hora, eu me lembro de tantos outros que sumiram, ao ponto de ter consciência de que se fosse fazer um post para cada um, daria trabalhão. Citarei apenas mais um caso agora e outros depois, porque com certeza nostalgia de coisas boas (e pessoas marcantes) precisam ser virais. O nome dele é Caio Suzarte de Souza.
Fomos ótimos amigos nos primeiros dois ou três anos do antigo ensino secundário (5ª a 7ª séries, hoje 6º a 8º ano do ensino fundamental), na saudosa Escola Polivalente de Feira de Santana. Fazíamos trabalhos juntos, conversávamos muito, tivemos uma sintonia e tanto por alguns anos. Caio era uma adolescente inteligente, singular, desses sem igual, que hoje poderia ser chamado de "cdf". Dava show em apresentações teatrais, dava show em provas, dava show em muitas aulas que tínhamos, respondendo perguntas dos professores com tanta propriedade que desde aquele tempo eu achava que ele seria muito bom em seja lá o ramo de conhecimento pelo qual se interessasse na vida.
No tempo em que dava valor a pop rock secular, foi Caio quem me apresentou pela primeira vez a Legião Urbana, a partir de uma frase a mim dirigida. Um dia, ele comentou alguma coisa, se me lembro bem era algo que tinha a ver com alguma letra-canção de Renato Russo e eu fiquei sem entender, quando ele me disse, cheio de ar nos pulmões, enquanto conversava com uns colegas de classe:

- Alberto, isso é Legião Urbana, você não cuuuuuuuurtcheeeeeee!!

A palavra "curte" soou bem carioca aos meus ouvindos, e tempos depois, quando me lembrava dessa cena, sorria sozinho. O fato é que ela, à época, serviu para mim: tempos depois, eu passei a ouvir mais a obra da Legião Urbana.
Hoje, foi-se o interesse pela Legião, mas ficou a lembrança do Caio, embora não exista nem fumaça de amizade...

O surprendente com Caio foi que de repente, não mais que de repente, ele passou por um processo na vida que até hoje não entendi direito. Mudou da água para o vinho. Ficou tristonho, mal humorado, sumido de tudo. Até hoje não esclareci se foi depressão, problema familiar, surto psicológico, doença psicossomática, etc, etc. Gostaria muito que ele me explicasse algum dia, nem que seja só por curiosidade, porque pode também não ter acontecido coisa alguma, quem pode saber?
Não sei que destino Caio teve depois desse tempo, pois já faz muitos anos que não troco uma silaba com ele. Soube por uma conhecida em comum que estava fazendo um curso aqui na nossa UEFS, fato que parece se confirmar em seu perfil no Facebook.

É, diferentemente de Agda, o Caio não desapareceu e até tem uma vida online. Paradoxalmente, o Caio desapareceu sim, porque pelo fato de não conhecer o Caio que hoje existe, posso supor que ele está totalmente diferente do Caio de 1992, quem vai saber?
Mas como é estranho o quanto as pessoas passam na vida da gente por pouco tempo, deixam uma marca registrada, depois somem, e depois o distanciamento nos faz pensar no que poderia ter sido e que não foi...
16 de novembro de 2011